Glaucoma em São Paulo: o que é, como tratar e quando considerar a cirurgia

Publicado por Dr. Glauco Aquino, oftalmologista | CRM-SP 216.478 | RQE 126.831
Última revisão: 4 de junho de 2026

O glaucoma é uma doença do nervo óptico que, quando não tratada, leva à perda progressiva e irreversível da visão. O que torna o glaucoma particularmente traiçoeiro é que, na maioria dos casos, ele não dói, não causa vermelhidão e não embaralha a visão nos estágios iniciais. A pessoa enxerga normalmente, sem perceber que o nervo óptico está sendo danificado. Por isso, o glaucoma é chamado de “o ladrão silencioso da visão”.

O diagnóstico precoce muda completamente o prognóstico. Pacientes identificados no início e tratados adequadamente têm grande chance de manter boa qualidade de visão por toda a vida. O tratamento não restaura o que foi perdido, mas pode parar ou desacelerar significativamente a progressão da doença.

Índice

O que é glaucoma e como ele danifica a visão

O olho produz um líquido chamado humor aquoso, que circula dentro da câmara anterior (o espaço na frente do olho, entre a córnea e o cristalino). Esse líquido é drenado por um sistema de filtração, o “ralo” do olho, chamado de malha trabecular. Quando essa drenagem não funciona bem, o líquido se acumula e a pressão dentro do olho aumenta.

A pressão ocular elevada, mantida ao longo do tempo, danifica as fibras do nervo óptico. O nervo óptico é o cabo de fibras que transmite as imagens captadas pela retina para o cérebro. Quando as fibras são perdidas, a informação deixa de chegar, e surgem pontos cegos no campo visual.

A progressão do glaucoma começa pelas bordas do campo visual (visão periférica) e avança em direção ao centro. Por isso, nos estágios iniciais e intermediários, a pessoa não percebe nada de errado: a visão central está preservada. Quando o paciente começa a notar que está enxergando mal, o glaucoma costuma já estar em estágio avançado.

Nem todo glaucoma é causado por pressão ocular alta. Existe o glaucoma de pressão normal, em que o nervo óptico é mais sensível e se danifica mesmo com pressões dentro da faixa considerada normal. Daí a importância de avaliar o nervo óptico diretamente, e não apenas medir a pressão.

Tipos de glaucoma

Glaucoma de ângulo aberto (crônico)

É o tipo mais comum, correspondendo a mais de 90% dos casos. A drenagem do humor aquoso está comprometida de forma gradual e silenciosa. Não há sintomas nas fases iniciais. A pressão sobe lentamente, e o nervo óptico é danificado ao longo de anos.

Glaucoma de ângulo fechado

Nesse tipo, a drenagem é bloqueada de forma aguda ou crônica pelo fechamento do espaço entre a íris e a córnea. O fechamento agudo causa um aumento brusco da pressão, com dor intensa, vermelhidão, visão turva e às vezes náusea. É uma emergência oftalmológica. O fechamento crônico pode ser mais silencioso.

Glaucoma de pressão normal

O nervo óptico se danifica mesmo com pressão ocular dentro dos valores considerados normais (até 21 mmHg). O diagnóstico é feito pelo aspecto do nervo óptico e pela perda de campo visual, não pela pressão.

Glaucoma secundário

Causado por outra condição que eleva a pressão ocular: uso prolongado de corticosteroides, uveítes (inflamações do olho), trauma, neovascularização (como no diabetes avançado ou nas doenças vasculares da retina, como a oclusão dos vasos do fundo do olho), entre outras.

Glaucoma congênito

Presente desde o nascimento ou que se manifesta na primeira infância, por malformação do sistema de drenagem.

Fatores de risco

  • Histórico familiar: ter parente de primeiro grau com glaucoma multiplica o risco
  • Idade acima de 40 anos: o risco aumenta progressivamente com a idade
  • Pressão ocular elevada: mesmo sem glaucoma estabelecido, é fator de risco importante
  • Miopia alta: olhos muito míopes têm nervo óptico mais vulnerável
  • Descendência africana ou hispânica: maior prevalência e formas mais agressivas
  • Diabetes e hipertensão arterial: associados a maior risco de dano vascular do nervo
  • Uso prolongado de corticosteroides: colírios, pomadas ou comprimidos/injeções podem elevar a pressão ocular
  • Trauma ocular prévio

Ter fatores de risco não significa ter glaucoma, mas indica a necessidade de avaliação periódica.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico de glaucoma não se faz apenas medindo a pressão. Ele exige uma avaliação estruturada do nervo óptico e da função visual.

Tonometria: medição da pressão intraocular. É importante, mas não define o diagnóstico sozinha. Pode ser realizada por diferentes métodos, sendo o mais confiável o Tonômetro de Aplanação de Goldmann, feito pelo médico diretamente na lâmpada de fenda. O tonômetro de sopro (aquele que emite um jato de ar) é um bom método de triagem, mas valores alterados devem ser confirmados com o tonômetro de Goldmann.

Fundoscopia (fundo de olho): avaliação direta do nervo óptico com lente e lâmpada de fenda ou capacete. O médico observa a proporção entre a escavação central do nervo e o disco óptico total, além do aspecto das fibras nervosas.

OCT do nervo óptico e da camada de fibras: tomografia de coerência óptica que mede a espessura da camada de fibras nervosas ao redor do nervo óptico. Detecta perda estrutural até mesmo antes de a campimetria mostrar alteração funcional. É um dos exames mais importantes para diagnóstico precoce e acompanhamento.

Campimetria computadorizada (campo visual): mede a sensibilidade visual em diferentes pontos do campo visual. Detecta perdas funcionais, ou seja, áreas em que a visão já não funciona bem (pontos cegos). Usada tanto para diagnóstico quanto para monitorar a progressão da doença ao longo do tempo.

Gonioscopia: avaliação do ângulo de drenagem (o “ralo” do olho) para classificar o tipo de glaucoma, definir os tratamentos possíveis e acompanhar o funcionamento dessa estrutura ao longo do tempo.

Paquimetria: medição da espessura da córnea. A espessura corneana influencia a leitura da pressão e é fator de risco independente.

O diagnóstico é confirmado pela combinação dos achados: aspecto do nervo óptico, análise do OCT e resultado da campimetria. Um único exame alterado não define o diagnóstico.

Laser para glaucoma: SLT e outras opções

O laser para glaucoma é a primeira opção para a maioria dos casos de ângulo aberto. Tem menos efeitos colaterais que os colírios, apresenta bom perfil de segurança e estabilidade da doença ao longo de anos, e não depende de o paciente pingar o colírio todos os dias.

SLT (Selective Laser Trabeculoplasty)

A trabeculoplastia seletiva a laser é o procedimento mais utilizado. O laser é aplicado na malha trabecular, o sistema de drenagem do olho, estimulando sua atividade e melhorando o escoamento do humor aquoso. Isso reduz a pressão intraocular.

O SLT é realizado no consultório, com colírio anestésico, em poucos minutos. Não requer internação. O efeito demora algumas semanas para se estabelecer completamente.

A redução de pressão obtida com o SLT é comparável à de um colírio de prostaglandina, segundo o LiGHT Trial, publicado no New England Journal of Medicine (2019). O efeito pode durar de 1 a 5 anos, e o procedimento pode ser repetido.

Esse estudo, que acompanhou pacientes tratados com laser ou com colírios ao longo de muitos anos, mostrou que os pacientes tratados com laser tiveram menor progressão da doença, menor necessidade de cirurgias, menor desenvolvimento de catarata e menos efeitos colaterais. Por isso, o SLT é a primeira opção de tratamento para pacientes recém-diagnosticados com glaucoma de ângulo aberto.

Para pacientes que já estão em outros regimes de tratamento e têm dificuldade de aderir ao colírio diário, ou que apresentam efeitos colaterais com as medicações, o SLT é uma alternativa relevante a discutir na consulta.

Iridotomia a laser

Indicada para glaucoma de ângulo fechado e para prevenção do fechamento agudo. O laser cria uma pequena abertura na íris, permitindo que o humor aquoso circule com mais facilidade e alcance o “ralo” do olho, o trabeculado, onde será drenado.

Ciclofotocoagulação

Procedimento que reduz a produção de humor aquoso por tratamento a laser do corpo ciliar, estrutura responsável pela produção do líquido. Geralmente realizado em pacientes com contraindicações a outras cirurgias, ou em casos de ângulo fechado antes da cirurgia de catarata.

Tratamento com colírios

O tratamento de segunda linha do glaucoma de ângulo aberto é o colírio. O objetivo é reduzir a pressão intraocular para um nível que proteja o nervo óptico da progressão.

Análogos de prostaglandina (latanoprosta, bimatoprosta, travoprosta): aumentam a drenagem do humor aquoso. São os colírios mais eficazes para redução da pressão e geralmente a primeira escolha entre as medicações. Uso uma vez ao dia, na maioria das vezes à noite.

Betabloqueadores (timolol, betaxolol): reduzem a produção de humor aquoso. Muito usados, mas com restrições para pacientes com asma ou arritmias.

Inibidores da anidrase carbônica (dorzolamida, brinzolamida): também reduzem a produção. Podem ser usados em colírio (2 a 3 vezes ao dia) ou em comprimido.

Alfa-agonistas (brimonidina): reduzem a produção e aumentam a drenagem. Usados como monoterapia ou em combinação.

Colírios combinados: associam dois princípios ativos em um único frasco, facilitando a adesão ao tratamento.

A eficácia do tratamento depende diretamente da adesão: o colírio só funciona quando usado corretamente e de forma contínua.

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Cirurgia de glaucoma: MIGS e procedimentos convencionais

Quando os colírios e o laser não são suficientes para controlar a pressão, ou quando a doença está progredindo apesar do tratamento, a cirurgia é considerada.

MIGS (Minimally Invasive Glaucoma Surgery)

As cirurgias minimamente invasivas de glaucoma são uma geração mais recente de procedimentos que melhoram a drenagem do humor aquoso com menor risco e recuperação mais rápida que as cirurgias convencionais.

Existem diferentes dispositivos e técnicas de MIGS, com mecanismos variados. Muitas dessas técnicas podem ser combinadas com a cirurgia de catarata, aproveitando o mesmo ato cirúrgico.

Os MIGS são especialmente indicados para glaucomas leves a moderados. Têm um bom perfil de segurança, mas são menos eficazes na redução da pressão quando comparados a cirurgias como a trabeculectomia. Por isso, a indicação deve ser muito bem estudada, principalmente para verificar se o nível de redução da pressão é atingível com esses procedimentos ou se outras cirurgias são mais indicadas.

Entre as principais opções de MIGS estão a goniotomia por Tanito MicroHook, a goniotomia com Kahook Dual Blade, o GATT (Trabeculotomia Transluminal Assistida por Gonioscopia) e o implante de dispositivos como o iStent.

Trabeculectomia

A trabeculectomia é a cirurgia convencional de glaucoma mais realizada no mundo há décadas. O cirurgião cria uma fístula que permite que o humor aquoso drene para um espaço sob a conjuntiva, formando uma bolha de filtração. É altamente eficaz para reduzir a pressão, especialmente em casos avançados.

Implantes de drenagem (válvulas e tubos)

Dispositivos que criam um canal permanente de drenagem entre o interior do olho (tubo) e um reservatório sob a conjuntiva. Indicados em casos específicos, como glaucomas por uveíte, situações em que a trabeculectomia falhou, olhos muito inflamados ou casos em que outras cirurgias têm menor probabilidade de sucesso. Entre os exemplos estão os tubos de Susanna, Ahmed e Baerveldt.

Quando considerar alternativas ao colírio diário

O colírio diário é eficaz, mas não é simples de manter para todos os pacientes. Esquecimentos, efeitos colaterais, custo e dificuldade de aplicar corretamente são barreiras reais.

Existem situações em que faz sentido conversar sobre alternativas:

Dificuldade de adesão: pacientes que esquecem o colírio com frequência têm o nervo óptico exposto à pressão elevada nos dias sem tratamento. Nesses casos, o SLT pode ser uma alternativa mais confiável.

Efeitos colaterais inaceitáveis: algumas pessoas não toleram bem as prostaglandinas ou os betabloqueadores. Há outras opções de colírio e há o laser como alternativa.

Pressão não controlada com colírios: quando a pressão-alvo não é atingida mesmo com múltiplos colírios, o laser e eventualmente a cirurgia entram na discussão.

Glaucoma associado à catarata: quando as duas condições estão presentes, combinar a cirurgia de catarata com um procedimento que reduza a pressão, como os MIGS, pode controlar o glaucoma e melhorar a visão em um único ato cirúrgico.

Acompanhamento e qualidade de vida

O glaucoma é uma doença crônica. O acompanhamento não termina após o diagnóstico e o início do tratamento. Ele dura a vida toda, com consultas periódicas para monitorar a pressão, o nervo óptico e o campo visual.

A frequência do acompanhamento varia conforme o estágio da doença e a estabilidade do tratamento. Em fases iniciais e estáveis, consultas a cada 6 meses costumam ser suficientes. Em casos mais avançados, o intervalo pode ser menor.

Ter glaucoma não impede uma vida normal. A grande maioria dos pacientes diagnosticados precocemente e tratados adequadamente mantém boa qualidade de visão por décadas.

Glaucoma em São Paulo: o que considerar

Experiência com casos complexos: glaucoma avançado, glaucoma refratário ao tratamento e casos que exigem cirurgia requerem experiência específica.

Acesso aos exames necessários: OCT de nervo óptico, campimetria e gonioscopia são exames centrais no acompanhamento do glaucoma.

Continuidade do cuidado: o glaucoma exige acompanhamento de longo prazo. Ter um médico de referência que conheça sua história e seus exames ao longo do tempo faz diferença.

Discussão aberta sobre as opções: colírio, laser e cirurgia têm indicações diferentes. Um bom acompanhamento inclui explicar as opções e discutir o que faz mais sentido para cada momento da doença. Existem cirurgias diferentes com indicações específicas, e a personalização do tratamento de cada paciente é a chave para o sucesso.

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Perguntas frequentes sobre glaucoma

Glaucoma tem cura?

Não existe cura para o glaucoma no sentido de eliminar a doença. O que o tratamento faz é controlar a pressão ocular para proteger o nervo óptico e impedir ou desacelerar a progressão da perda visual. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, é possível manter boa qualidade de visão por toda a vida.

Glaucoma dói?

O glaucoma crônico de ângulo aberto, que é o mais comum, não causa dor. É uma doença silenciosa. O glaucoma de ângulo fechado agudo pode causar dor intensa, mas é um tipo diferente e menos frequente.

Posso perder a visão por causa do glaucoma?

A perda visual por glaucoma é possível, mas está diretamente relacionada ao diagnóstico tardio e ao tratamento inadequado ou abandonado. Pacientes diagnosticados precocemente e que mantêm o tratamento têm grande chance de preservar a visão.

Preciso usar colírio para sempre?

Depende do tipo de glaucoma e da resposta ao tratamento. Em muitos casos, o colírio é usado por anos ou indefinidamente. Em outros, o laser (SLT) pode reduzir ou substituir o colírio por períodos variáveis. Hoje, o SLT é a primeira opção de tratamento para a maioria dos pacientes com glaucoma de ângulo aberto.

Meus filhos podem ter glaucoma?

O histórico familiar é um dos principais fatores de risco. Filhos e irmãos de pacientes com glaucoma devem fazer avaliação oftalmológica a partir dos 40 anos, mesmo sem sintomas.

Pressão ocular alta sempre significa glaucoma?

Não. Pressão ocular elevada (hipertensão ocular) é um fator de risco, mas não define o diagnóstico. Há pessoas com pressão alta que nunca desenvolvem glaucoma, e há pessoas com pressão normal que têm o nervo óptico danificado (glaucoma de pressão normal).

O que é a trabeculoplastia seletiva a laser (SLT)?

É um procedimento a laser realizado no consultório que melhora a drenagem do humor aquoso e reduz a pressão ocular. É a primeira linha de tratamento do glaucoma de ângulo aberto na maioria dos casos. Para pacientes que já usam colírios, pode ser indicado como alternativa ou complemento às medicações. Tem boa evidência científica de eficácia e pode ser repetido quando o efeito diminui ao longo do tempo.

Glaucoma interfere na vida normal?

Nos estágios iniciais e moderados, não. A grande maioria dos pacientes com glaucoma controlado leva uma vida completamente normal.

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Sobre o autor

Dr. Glauco Aquino
Oftalmologista especialista em Glaucoma Clínico e Cirúrgico Avançado, Cirurgia Refrativa e Cirurgia de Catarata. Fellowship e Residência Médica pela UNIFESP. Atende exclusivamente particular na Vila Mariana, São Paulo.

CRM-SP 216.478 | RQE 126.831


Dr. Glauco Aquino / CRM-SP 216.478 | RQE 126.831